quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ABISSAL


É um espetáculo este poema.
Tratar das diferenças, da  coragem e da sobrevivência humanas, ao mesmo tempo, e fazendo analogia com os abissais, foi uma ideia ímpar.
Espero que gostem da leitura.
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Não sou peixe de superfície, de águas claras.
Peixes brilhantes, quase à luz do sol.
Peixes de escamas, de luz espalhada,
de cor espelhada, como óculos modernos.

Não sou peixe que pula à tona, à toa,
soltando gritinhos pros barcos que passam,
pros transatlânticos imunes.

Sou peixe que mergulha fundo,
pros territórios abissais,
pro escuro da pressão deformante.

Sou peixe feio, sozinho,
nas lacunas dos infernos marítimos,
de subvoadores.

Sou peixe amorfo, nu,
sem cor definida, vago,
na profunda imensidão do mar,
onde me perco: eterno infinito.

Rochas e sombras.
Algas obtusas, cavalos daninhos,
ostras crocantes
e tubarões de olhos grandes e assassinos.

Sou peixe enterrado nas esferas do habitat maior,
onde a sobrevivência causa pânico,
até aos pescadores.

Sou peixe magro, de barriga grande
e de visão presa, dura, no perigo.

Sou peixe inquilino da vida,
do grande sonho de viver.

Joca de Oliveira

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