segunda-feira, 28 de março de 2011

Perto do coração selvagem


Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos de sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir. Traziam um conhecimento que não servia como experiência - um conhecimento direto, mais como sensação do que percepção. (...) Uma vez terminado o momento de vida, a  verdade correspondente também se esgota.  Não posso moldá-la, fazê-la inspirar outros instantes iguais.  Nada pois me compromete."


Clarice Lispector – Perto do coração selvagem. São Paulo: Círculo do livro, 1980, p. 94