terça-feira, 13 de setembro de 2016

Madrigal Melancólico

postado em 19/7/2010 11:47:38, no Space.
Gosto sempre de postar junto aos textos algo bonito, interessante, em termos de imagem.
Porém, não achei  nada que acompanhasse a intensidade do poema.
Como descrever, sem palavras, tantas motivações para  tamanho apreço? Que imagem consubstanciaria os extremos desejados? Creio que aquele que adora não deseja em parte, pois sabe que não dá para fracionar uma vida, um ser, uma pessoa.
Enfim, que fiquem somente as palavras... Elas são suficientes para dizer o que precisa ser dito.
Abraços,
Magda

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"O que adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida”


(Manuel Bandeira, Madrigal Melancólico. In: Poesia Completa e Prosa / O Ritmo Dissoluto. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1995, p.189)