terça-feira, 11 de outubro de 2016

Perdas


Atualizado em 29/11/2016, às 15h15*
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Nunca se entra no mesmo rio duas vezes (Heráclito).
Fiquei triste e chocada com o episódio do ator Domingos Montagner. Um mergulho em águas caudalosas  e vida se vai. O Velho Chico não é brinquedo.
Antes da confirmação de sua morte, os comentários iam pelas mais variadas vertentes. Dos pernósticos e maldosos, passando pelas piadas de mau gosto e chegando aos desejos normais de que ele fosse encontrado e estivesse bem. Obviamente, quando a mídia fez a confirmação isso era sabido há tempos. Mas nestes casos, todo zelo ainda é pouco. Quem quer saber que um ente querido seu foi a óbito pelas notícias do Facebook ou pela mídia? Ninguém.
Trata-se de uma perda. Dolorosa perda. Indiscutível dor que vai assombrar seus filhos até quando eles forem capazes de entender essa intercorrência na vida, a qual chamamos de morte.
Deixou  esposa, três filhos…
E se a situação fosse com você? Como contabilizaria?
Vou dar como exemplo o falecimento da minha mãe. Foi  em 12 de abril de 2012, fim da tarde. Sim. Já faz 4 anos, mas parece que foi ontem.
Vamos ver quem perdeu quem:
  • um marido perdeu a esposa;
  • seis filhos perderam a mãe;
  • seis irmãos perderam a irmã;
  • sete netos perderam a avó;
  • três bisnetos perderam a bisa;
  • mais de vinte sobrinhos perderam a tia;
  • um sem número de amigos perdeu uma amiga;
  • muitos irmãos em Cristo perderam uma Irmã em Cristo; e
  • muitas pessoas perderam o bom dia e o sorriso que ela usualmente dispensava a todos.
Na realidade, perdemos muito mais do que podemos escrever, afinal, ela poderia amar e ser amada ainda muito mais, se tivesse sobrevivido.
Quem  “ganhou”? A Funerária, a Floricultura, o Cemitério… Bom, precisamos deles, então, vamos entender tudo isso como uma prestação de serviços dos quais todos faremos uso, algum dia.
Por que estou tratando desse assunto?
É pela necessidade de respeito que precisamos ter com a dor e o sofrimento alheios. Cada vez que vejo os comentários sobre o falecimento de alguém, fico estarrecida, e me pergunto onde foi parar a humanidade.
Morrer  é tão normal quanto viver.
Mas é mais sofrido para quem fica ou para quem se vai?
O desespero da minha mãe ao ser levada à semi UTI para ser entubada, com a mão fora da maca e tentando se segurar em todos os suportes de soro pelo caminho, me mostrou que a jornada estava indo para o seu final. Não foi falta de fé. Foi uma pneumonia bilateral grave.
Quem parte, leva parte de nós e deixa parte de si. Uma viagem sem retorno. Óbvio que ela tinha medo de sair dali e não voltar, apesar de nossas crenças. Ela estava sofrendo, mas, ainda assim, eu não sei se consigo ver a morte como livramento. Ela estava em coma induzido. E aí? Acho que não importa como se morre.  Acredito que se  há coragem, ela é momentânea e só quem está no olho desse furacão sabe o que está sentindo. Todo o resto é conjectura.
Por isso, respeite as lágrimas, as dores (sim, dói em mais de um lugar), o desconforto, a letargia ou o desespero de quem está enlutado. Ficamos frágeis, mesmo que não aparentemos. Cada um reage de forma diferente e tem relações diferentes (reveja a minha lista).
Sem perguntas. Não importa como aconteceu. Não queira saber motivos, razões ou circunstâncias. Curiosidade não ajuda nesse momento e nem é salutar.
Não sabe o que dizer?  Não precisa dizer nada. Um abraço  apertado cabe nesse orçamento emocional e terá um significado enorme até quando você mesmo deixar esse plano físico. Se não tem intimidade, um aperto de mão forte. A sua presença já denuncia o quanto você se importa e porque você está ali.
Se não quiser ir, também não precisa. Ir a velórios e sepultamentos não é para todos. Isso é fato e todo mundo entende.
Sobre redes sociais. Por favor, se não houve manifestação da família nesse quesito, não se manifeste também. Se houve,  não escreva nada de que possa se arrepender depois. Melhor, escreva o estritamente necessário. O que é jogado na rede, fica na rede e ela não serve para tudo. Adoraria que as pessoas entendessem isso. Enfim, não seja você um multiplicador de coisas desagradáveis.

*Ainda sobre redes sociais: em caso de tragédia ou não, por favor, encarecidamente, por obséquio, por respeito, não divulgue fotos das vítimas, não alarde a rede que já é tão agitada. Recebeu? Delete. Ver qualquer coisa nesse sentido para a família é sofrer demasiado. Um exemplo: a última vez que vi minha mãe sem vida foi no reconhecimento do corpo, por necessidade. Depois, a imagem que ficou pra mim foi de uma mulher sofrida, mas não triste. É o que queremos ter dos que amamos: lembranças de como puderam ser felizes em sua passagem por essa vida, apesar de tudo e de todos.
A morte é perda. Não tem ganho. É momento de dor. Em caso de dúvida, revise a lista que passei.
Sua religião diz diferente? Ainda assim, respeite as convicções religiosas e filosóficas da família. São eles que estão precisando de apoio.

*Por último, respeite a memória de quem se foi e respeite a dor de quem ficou.

No mais,  Ces’t la vie...

Magda
(15/09/2016)