sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Meu Muro Mental




Esse texto traz consigo explicações, gratidão, declaração de amor e um apelo.

Nunca me expus dessa forma e talvez seja importante para as pessoas entenderem que eu estou longe de ser perfeita e que ainda tenho o direito de ser feliz, seja onde ou com quem for.

* * * 
Nos últimos dias pude vivenciar uma mudança. Não plena. Não completa, mas significativa.
Por motivos do coração, precisei conversar um pouco e ler também sobre o que estava ocorrendo comigo.
Tive a grata surpresa ao ler um artigo de Costica Bradatan intitulado “A psicologia de fronteiras e barreiras: escalando o muro na cabeça”. Parece óbvio, pelo título, mas me deu uma luz que não havia ou eu não via antes.
Vamos ao início.
Não sou boa em relacionamentos.
Acho que não fui uma boa filha e, muito menos, sou uma boa mãe. Devo ter herdado o falar pouco do meu pai. Ele falava pouco, ou quase nada.
Com os irmãos se tem mais intimidade e a tendência é conversar mais. Na família em geral, há muitas variações.
Amigos, alguns de longa data, às vezes passamos meses sem trocar uma palavra. Com os amigos do trabalho é mais corriqueiro e vamos por muitas temáticas.
No trabalho: Para os colegas de trabalho, devo ser insuportável às vezes. Chefias. Já fiz merda.  Já fui irresponsável. Mas me disciplinei ao longo dos anos. Não podia ser diferente, afinal não só paga as minhas contas, mas eu gosto mesmo de trabalhar, de produzir, de ver as coisas acontecerem.
Relações amorosas. Caos. O primeiro chifre a gente nunca esquece. Aos 16 anos, acho. Entre as histórias de perder a virgindade aos 22 anos e ser uma vadia de 46 anos que não queria se prender a ninguém, muita coisa rolou.
Vamos lá?
Não desmerecendo as pessoas que passaram pela minha vida, vou citar por ordem de importância e que acaba por ser, também, cronológica.
- a que me deu uma filha, a que ajudou-me a criá-la e  a que afastou-a de mim
Detalhes, quem, quando, não importa, por isso esse referencial diferente. Se os amei/gostei? Sim. Todos tiveram o seu momento e foram ajudadores, de alguma forma, em me ensinaram a crescer como pessoa e como mulher e, inclusive, a não querer mais nenhuma relação. Fui boa em todo o tempo e para todos? Não. Cometi inúmeros erros. Pisei na bola, gritei, esperneei, chorei (muito) e fui embora. A gente sabe quando não dá mais, ainda que haja um arrependimento no fundo da alma e o chão suma. Fiquei cansada mesmo.
Construí um muro. Um muro alto, largo e profundo. Acho que tinha um fosso externo com crocodilos esfomeados, também.
Durante essa construção, uma pessoa reapareceu e optamos por essa entrada pouco ortodoxa. Sem relação afetiva. Só relação carnal. Simples assim. Quer? Quero! Bora? Bora, mas sem levar o ruim para o ambiente. Eu só queria as coisas boas e momentos únicos. E depois morria o assunto. Era consensual sabermos o mínimo, compartilharmos o mínimo, e entrar um na vida do outro o mínimo, ou nada, de preferência. Relacionamentos assim também são cansativos. E como tudo é passível de desgaste, foi o que ocorreu. Voltei de Curitiba em outubro de 2009. Até fevereiro do ano passado, mantinha essa relação.
Aos que me conhecem e aos que não, estou sendo real, verdadeira e honesta, para que não pensem que as minhas ausências tenham sido só por discordância de ”XPTO”. Estive vivendo de modo diferente do que ousei pregar durante muito tempo. Mas não pensem que vou entrar em um casamento para poder fazer sexo com alguém. Esse referencial teórico, para mim, não cabe mais. Sexo é algo natural e saudável. E eu gosto. E muito.
Felizmente, o universo conspira, ou ainda na minha indignidade, o Senhor olhou para mim, e colocou em minha vida pessoas boníssimas. Aliás, essas pessoas sempre aparecem, para algo específico ou amplo. Em 2016 comecei a conhecer mais pessoas e muito especiais.
A algumas, damos mais atenção, porque chegaram de modo curioso. Interessante isso. Sempre penso nessas coisas e as estranho. São surpresas boas. Muito gratas. Só tenho a agradecer os conselhos, as muitas canções compartilhadas, zaps, curtidas no face, leituras forçadas. É muito bom ter em quem confiar.
Outras, depois de um compromisso furado há quase um ano, aparecem, para deixar a noite mais agradável, diferente, recheada de honestidade. Botei fé. Foi bom.
Outros, rodeiam, rodeiam, cercam e chegam, de mansinho.
Decidi que queria escrever sobre relacionamentos homem-mulher e queria partir do ponto principal: como conhecer alguém. Resolvi fazer um laboratório nos sites de relacionamentos: Badoo, Hi5, Par Perfeito, Amor em Cristo, Amores Possíveis, Lovoo e Twoo. Coloquei meu perfil, real, foto real, nome real e neles permaneci entre 48 a 96 horas. A ideia era conversar com as pessoas para saber que elas estavam de fato fazendo ali. Acho que assustei muitas, deixeis outras zangadas e cativei uma.
E assim tudo começou.
A minha ideia de falar sobre relacionamentos não era para eu me expor, nem expor ninguém. Mas agora é diferente. Por que, você deve estar se perguntando. E eu respondo. Porque essa pessoa me tirou de detrás desse muro. Ou melhor, ajudou-me na sua queda, para que eu pudesse enxergar o que estava lá fora. E isso não tem preço.
Bem arredia a princípio, como sempre. Mas aos poucos a gente vai conhecendo a pessoa e sente que por mais que se queira afastá-la, algo já está acontecendo. E quando a pessoa não desiste? Quanto medo tive de querer algo que não fazia parte da minha rotina há tanto tempo.
Mas havia outro ponto preponderante. A distância. A geografia não iria perdoar. Vou onde você quiser ir/estar. “Deixa” boa de se ouvir. Ainda assim, não parecia tão simples para mim. Ao contrário, considerei no primeiro algo fadado ao insucesso. Mas ele não desistiu de mim. Foram muitas conversas e sobre vários assuntos. As questões de cunho íntimo precisavam ser “diligenciadas” e não “negligenciadas”. E assim foram, algumas não bem recebidas, outras não bem entendidas. Mas eram minhas razões. Eu vivi aquilo. Muitas considerações foram feitas. Me aborreci algumas vezes por isso, porque nada parecia crível o suficiente, ou justificava essa minha aversão ao mundo do amor, e esse meu “eu radical”. Seguimos em frente, com o processo de dizer sim, e como ele diz, não foi fácil.  Várias vezes justifiquei que não estava pronta.
Aliado a isso, a pressão da família com medo que eu fizesse alguma bobagem adicional, como por exemplo, ir embora de BSB de novo, largar minha filha, meu trabalho, minha vida. Traumas. Meus e de todos. Mas eu precisava me libertar disso e libertar todo o resto, libertar as pessoas, e dizer: olha, ainda é a minha vida. Quero ser feliz, quero ao menos tentar.
Foram dias tensos. Muro vindo abaixo. Salve-se quem puder, que eu estou pulando fora de estar sozinha, de passar minhas noites em casa fazendo crochê na frente da TV. Agora, quero mais que isso.
Contagem regressiva para o encontro. Nesse interim, disse, novamente, que não estava pronta.
Rosa vermelha no aeroporto e foram três dias ótimos, onde pretendia conhecê-lo. Saber ele, dele, o que gostava, como vivia, o que queria, como seria na intimidade. Mas foram só três dias. Ansiados, mas insuficientes três dias. Chegar ali, não foi fácil para nenhum de nós.
Quando me despedi, sim, você entendeu, eu me despedi e segui para o embarque, parecia que as pedras do muro estavam voltando, como quando apertamos o back, para ver o quadro anterior de um filme. Ali, algo já estava acontecendo de diferente. Fiquei atônita, sem saber o que fazer, me veio de imediato uma sensação de arrependimento ao pensar no “e agora”. Quase fiz um buraco na frente do portão de embarque e, para piorar, o voo estava atrasado. Mas era mais que oficial, agora: eu estava amando. Céus! Pânico. Total. Completo.
No dia seguinte, acordei angustiada. Como se algo tivesse sido arrancado de dentro de mim. E foi. Minha comodidade acabou quando dei as costas a ele. Poderia ter dito o que sentia a minha família. Não fiz isso. Não falei nada com ninguém. O muro mental está sendo reconstruído. Pânico de novo. Mas, eu queria. E queria também desistir.
Discorri com ele sobre como me sentia e me acalmei, acho. Mas eu não tinha mais aquela intimidade de chamar para conversar sem medir palavras, sem preocupação, e com objetividade. Algo mudara. Tinha medo de falar alguma besteira. E quanto mais medo, mais besteiras eu falava. Cheguei ao ponto de sentir ciúmes, eu solta, despreocupada e bem resolvida, sentindo ciúmes. Mais pânico. Mas eu queria continuar, eu queria desistir. Sei lá.
Os dias foram se passando, não sei se entramos nos eixos, já que a rotina dele é muito diferenciada e a minha, pesada. E convenhamos, distância é F. Distância do ambiente doméstico padrão, nem se fala. Percebi que essa era muito comum, na volta a BSB. Quantas vezes falamos do wifi da minha casa para o wifi da sua casa(?) teria sido uma boa pergunta. Quanto tempo disporemos para ficar juntos, se trabalho fora e você em casa ou em viagem(?), teria sido outra. Quanto de passos realmente deverão ser dados por cada um para ficarmos juntos(?), seria outra. Mesmo sem essas perguntas, queria continuar.
Essa dificuldade quanto à geografia deu-se porque eu, tal qual Scarlett O´Hara, cerrei os punhos e disse aos quatro cantos, um dia: não sairei de Brasília em função de ninguém mais! Só se for para terminar meus dias em João Pessoa.
Um belo dia, me enchi de razão e tomeis algumas decisões e deixei outras mais flexíveis. Não convém citá-las, mas sair de Brasília já não me trazia tanto sofrimento. O que a minha família pensava, também não. Um pequeno passo e muro, nunca mais!
Certo dia, perguntou-me se estava atrapalhando a minha vida. Eu disse, claro que não. E não mesmo.  Durante o pouco tempo, ele foi a pessoa que esteve comigo, fazendo de mim alguém especial. Isso também não tem preço. Quem me conhece e olha para mim, sabe quando não estou bem. Deve ser difícil para alguém que me conhece pouco e está distante, interpretar o que digo, principalmente porque acabei me tornando mais prolixa.
Estávamos engatinhando nesse processo de conhecer o outro. Sim, você entendeu bem, estávamos.
Para mim alguns assuntos são bem desconfortáveis, mas tive que enfrentá-los, muito a contragosto. Outros, quando insistidos me dão a sensação de dèja vu.  Minha “parceria” estilo “Quer? Quero! Bora? Bora! Tchau! ”, estava novamente em evidência, apesar de ter respondido em outras oportunidades a muitas perguntas. Tive a sensação de uma falta de entendimento deliberada, para trazer à tona algo que não havia sido entendido, acatado ou acreditado, para ver se é aquilo mesmo, daquele jeito mesmo, quase uma acareação virtual. Sim, só o passado rondando minha porta feito alma penada, como diria Lulu. Nada anormal, já que todos os meus relacionamentos tiveram esse viés e ouvi frases absurdas como: “você é muito experiente para 22 anos, ou “tudo o que você disser será usado contra você” ou ainda “você não é confiável”. Não tinha frase, mas tinha o meu passado, que eu pensei estar sumindo da minha frente. Fui dormir.
Ontem acordei amando, mas sozinha. Meio desinteligente, inconstante, inconsequente e não confiável. Essa era a sensação.
Não iludi ninguém, dizendo que era uma pessoa fácil de lidar, ao contrário. Sou chata. Desconfiada. Nunca disse que estava pronta. Nunca disse que desencanaria de tudo com facilidade. Nunca disse que não tinha medo. Eu queria ter coragem, isso é óbvio, mas não tive, ao menos, não o suficiente. Eu disse que não era um “bom investimento”. E não me lembro de em algum momento ter feito exigências a fim de consumar uma relação (casar, mudar de religião, mudar de trabalho, mudar de hábitos, de rotina, parar de ser quem era). O importante eram o comprometimento e o respeito. Meus “mi mi mis”, giravam em torno do que havíamos conversado.
Eu disse queria ficar com ele. Disse que não queria mais ficar sozinha e decidir as coisas sozinha.
E, mais que tudo, disse: amo você.
Pensei que isso tivesse bastado para deixar o passado de lado, depois que já havíamos, cada um, falado dos erros e acertos nas relações anteriores e que elas serviriam para não errarmos mais, ou errarmos minimamente. Excelente ideia. Só que não. Um via um barco. O outro, uma jangada, a ermo.
Pedi um tempo. Houve uma interpretação bem zangada quanto a isso. Eu sinto muito, mas eu já estava sozinha e me senti no direito de fazê-lo.
Assim, cada um desejando ao outro que seja feliz, vida que segue, afinal, não sou o quanto e nem como fui imaginada: uma verdadeira parceira. Sei que não fui e lamento.
Nada disso mudou o que sinto. Nada disso mudou o modo como o vejo, e já disse que serei eternamente grata pelo o que ele fez por mim: posso olhar o mundo novamente.
Finalizando, minhas escolhas certas, ou erradas, fizeram de mim o que sou hoje. E eu não posso voltar ao início para querer ou fazer diferente. Adoraria. Mas não posso. Então, não cobrem pelos erros do passado. Sinto ter deixado meu trabalho, minha família, minha filha, mas não digam que não aprendi nada. Não digam que vão me amarrar caso eu pretenda sair daqui. Não digam mais que fui louca. Não me punam mais. Tenham todos a certeza de que eu já fiz isso por todos.
Obrigada por terem chegado ao final do texto.

Magda